FUI PRESO - Parte II

16.5.11
Uma coisa que meus pais sempre me disseram é que "Pablo, cuidado com os amigos. Não ande com quem usa drogas. Se a policia aparecer e eles estiverem com algo, você vai preso junto". É claro que na época eu acho que meus pais não esperavam que eu também fosse usar maconha. Mas é que eu tinha 7 anos e não sabia o quão divertida a vida poderia ser. Se soubesse, talvez tivesse dito para eles evitarem andar perto de mim na rua. Vai que a policia bate e eles rodam junto comigo? Assumam, papai e mamãe, vocês iriam ficar magoados. Mas tava aí uma praga jogada por meus pais na minha infância que se tornava uma realidade. A policia apareceu e eu rodei junto. Tanto lugar no mundo para estar e eu dentro de um camburão policial. Ah.

- Moço, pelo amor de Deus! Me soltaaaaaa! Não tem necessidade dissooooooo!

Eu + drogado + sem + controle + nenhum + chorando + muito

- Cala a boca, vagabundo!
Policial 2, tentando me acalmar.
- Moçooooo, não me levaaaaa! Por favoooooor! eu sou inocenteeeeeee!!!!

Eu + preso + em + flagrante + alegando + inocência

Adriana me deu um pescotapa para ver se eu sossegava:
- Pablo, para de gritar. Temos que resolver isso com calma.
- Calma, Adriana? Calma? Nós estamos sendo presos, minha filha. MOÇOOOOOO, POR FAVOOOOOOR!! ME SOLTAAAAAAAA!!!
Me deu outro tapa:
- Pablo, cala a boca.

Ok. Tudo bem. Talvez fosse melhor eu me acalmar. Tipo Pedro, que estava calado. Aliás, porque Pedro estava tão calado? Eu ein. Vou dar um pescotapa nele também. Ah, eu vou. Não. Pablo, fica calmo. É. Eu deveria me acalmar e começar a pensar em uma forma menos histérica para pedir para ser solto. Eu já estava dentro do camburão, mas né? Sempre rola uma esperança. Por exemplo, Guilherme de Pádua está solto. Ele matou alguém. E está solto. Quer dizer, eu tenho chances de sair dessa.

- Vocês estão sendo enquadrados no Artigo 290. Isso não é o tipo de coisa que vai sair da ficha de vocês. O nome de vocês ficará sujo para sempre.
Contavam os policiais, rindo.
- Moço, como assim?
- Se quiserem viajar, trabalhar, qualquer coisa, sempre que forem buscar a ficha de vocês vai estar lá que vocês foram detidos e condenados.
- Vamos ser presos? Ficar atrás das grades? (Pedro, finalmente falando algo)
- Não mais. A lei mudou. Agora vocês vão ser fichados, julgados e provavelmente terão de cumprir pena atuando em algum trabalho voluntário.

IH, GENTE.
TRABALHAR VOLUNTARIAMENTE NÃO É COMIGO NÃO.

- Ih, gente. Trabalhar voluntariamente não é comigo não, viu.

AI, MEU DEUS.
EU FALEI O QUE PENSEI. FALEI ALTO. AI, MEU DEUS.
AI, MEU DEUS!!!!


Os policiais riram do que eu disse.

- Conseguiram entender? E ainda terão que pagar 5 mil reais em cesta básica.

SOOOCORROO!!!!

- Cinco mil reais? Mas rola parcelar? (eu, claro)
- Não. É na hora. Hoje vocês serão fichados, será marcada uma audiência na semana que vem e então vocês serão condenados a pagar.

ISSO NÃO É REAL.
ISSO NÃO ESTÁ ACONTECENDO COMIGO.
EU NÃO ESTOU DETIDO NO CARRO DA POLICIA.
NÃO. NÃO ESTOU. CALMA, PABLO.

Olhei pela janela para ver o ultimo pedaço da praia que ainda nos restava, antes de entrarmos em uma das ruas que nos levaria rumo a delegacia. Fiquei olhando o calçadão, assistindo todas aquelas pessoas caminhando e fazendo exercícios de madrugada. Dois pensamentos invadiram minha cabeça:

1. Gente, por quê essas pessoas estão caminhando e se exercitando a essa hora da noite? Por quê elas não estão em casa dormindo? Se eu não estivesse sendo preso, com certeza estaria indo para casa dormir.
2. Aquele dali é o Herson Capri? Mas o que Herson Capri tá fazendo usando aquele shortinho de maratonista a essa hora da noite? Herson Capri tá correndo...

ISSO NÃO É REAL.
ISSO NÃO ESTÁ ACONTECENDO COMIGO.
EU NÃO ESTOU VENDO HERSON CAPRI DE MINI SHORTS CORRENDO NA PRAIA.
NÃO. NÃO ESTOU. CALMA, PABLO.

Mais calmo comecei a pensar que talvez fosse bom aproveitar que os policiais haviam me achado engraçado para tentar fazer uma amizade. Quem sabe um sexo. Digo, depois que eu fosse solto, um sexo animal com policiais brutamontes não cairia nada mal. Só para comemorar.

- Bem, me contem, vocês são policiais há muito tempo? (eu, puxando assunto)
Eles: - O QUE?
Não conseguiam me ouvir muito bem, o camburão tinha uma acústica péssima.
- VOCÊS. SÃO. POLICIAIS. HÁ. MUITO. TEM.PO?
Eles: - Ah, sim. Somos!
Adriana olhou para mim como quem diz "Para com isso. É sério. Estou com vergonha de você!". Mas nego sentir vergonha de mim também não é novo na minha vida. Prossegui:
- E vocês são casados? Solteiros...?
Eles pararam o carro.

AI, MEU DEUS. AI. MEU. DEUS. ACHO QUE FALEI MERDAAAAAA!!!

O carro parou em uma rua totalmente escura. Meu estomago se embrulhou de medo. Ou de fome, sei lá. Acho que estava me batendo uma larica.

Socorro, estou com larica e na cadeia não vai ter nada para comer até amanhã. Socorro.

Eles saíram do carro. Comecei a achar que eles iriam nos bater até que morressemos. Ou, quem sabe, nos matar sem nem nos bater. Ou comer nosso cu a seco. Ou todas as opções anteriores e não necessariamente nessa ordem. Ouvia os passos deles do lado de fora do camburão, se aproximavam da porta. Era o som da morte chegando para nos buscar. Abriram nossa porta.

- Bem. Não sei nem como dizer isso para vocês... - Policial 2, sorriso de lado no rosto. Abaixamos a cabeça e ele prosseguiu: - Nós gostamos muito de vocês.

VÃO COMER NOSSO CUUUUUUUUUUU!! SOCORROOOOOOO!!!

- Não queremos vê-los com o nome sujo, sem conseguir arrumar emprego, tirar um visto de viagem para o exterior. Não queremos.
Riam.
- Fala logo, moço. (Adriana)
- A praia é filmada, vocês sabem disso.
Policial 1, também sorrindo.

VÃO NOS MATAAAAAR!!!!!!

- Sim. E aquelas fitas podem ser apagadas. Sempre se dá um jeito.
Concluiu.

VÃO BATER NA GENTEEEEEEE!!!!

- Sim. O que meu amigo está querendo dizer é que podemos apagar as fitas e fazer como se vocês nunca tivessem passado por lá.

VÃO COMER NOSSO CU E NOS BATER E NOS MATAAAAAAR!!!

Levantei meus olhos até os olhos deles. Uma vez vi num filme de terror que é muito importante manter contato visual com o assassino para que ele sinta pena de você. Eu estava atrás de fazer com que aqueles homens sentissem pena de mim.

- Apagar essas fitas custa um certo dinheiro e nós não temos esse dinheiro.
- Vocês querem dinheiro?
Adriana perguntou, sem rodeios.
- Queremos saber quanto vocês teriam para ajudar a gente...

FODEU, BRASIIIIIIIIIL!!!

- Moço, olha, se você revistou minha carteira, você viu: tenho vinte reais. (este sou eu, sempre esbanjando luxo e glamour)
- E você, menina?
- Eu tenho 40, seu policial.
- E você, garoto?
Pedro levantou a cabeça:
- Dez reais.

Eles se entreolharam:
- Olha, isso não ajuda vocês não.

REALIDADE: Estávamos sendo subornados e só tínhamos 70 reais. O destino: um amigo de longa data que só nos fode vez ou outra.

Os policiais ficaram meio que sem reação com nossa falta de dinheiro. Era aquele momento da noite para eles em que o plano de nos subornar estava indo pelo ralo.

- Como somos de agir com o coração - riram - Vamos levar vocês até o caixa eletrônico. Quanto de dinheiro vocês tem lá?

Como eu sou inocente, não é mesmo? Só de imaginar que eu cheguei a pensar que talvez eles pudessem nos dar uma surra. Ou nos matar. Ou comer nosso cu. Que nada. Eles estavam nos assaltando. Mãos para cima, país de cabeça para baixo: era um assalto.

Fomos até um caixa eletrônico na lagoa. Apenas eu tive permissão de descer do carro primeiro. Afinal, eu era o mais desesperado. Eles confiscaram minha carteira de identidade. Caso eu fugisse, seria dado como foragido da policia. Cadeia por mais de cinco anos. E o melhor vem agora. Onde eles pararam, só tinha como sacar do Itaú: fui sacar vinte reais e te falar que meu saldo estava insuficiente, ein. Eu não tinha nem vinte reais na conta. Climão. Comecei a pensar nas pessoas mais próximas para telefonar e pedir ajuda.

- Alô? Então. É que estou sendo preso e subornado. Queria saber da possibilidade de pintar na porta da sua casa agora com a policia para pegar uns cinquenta conto. Alô? Tem alguém na linha ainda? Amiga?

CLIMÃO

SABE... NÃO, PABLO. NÃO.

Voltei para o carro:
- Gente, o caixa aqui está quebrado. Acreditam? Acho melhor procurarmos outro... (eu menti mesmo. afinal...)

Na minha cabeça estava me correndo a angustia de saber onde é que eu poderia achar um caixa do Santander 24 HORAS. É de uma dificuldade ser um cliente Santander que olha. Sei não. Mais fácil eu ser preso e Xuxa, a rainha dos baixinhos, aparecer para me soltar do que achar um caixa 24 horas do banco Santander de madrugada. Depois de rodarem com a gente mais um tempo, achamos outro caixa 24 horas. Tinha Santander. Era dentro de um supermercado em Ipanema.

- Gente, acho melhor ligarmos para alguém e denunciar o que está acontecendo.
Eu dizia, querendo arrumar confusão.
- Pablo, vamos sacar o dinheiro, pegar nossas identidades e deixar por isso mesmo. Você quer denunciar eles para quem? Para a policia? Os amigos deles?

Sacamos uma quantia redonda. Entregamos aos policiais. Eles devolveram nossas identidades e nos mandaram entrar no carro. O show dos horrores parecia não chegar ao fim.

- Bem, como estamos felizes e ao mesmo tempo preocupados, queremos saber como vocês vão voltar para casa.
Ficamos confusos. Nos calamos.
- Digo, vocês querem que deixemos vocês na porta do metrô? Num ponto de ônibus?

GENTE...
???????????????

- Não, moço. Você pode deixar a gente aqui. Em qualquer lugar. (eu)
- Mas aqui é perigoso, meninos.

??????????????????????????

Tem umas coisas que acontecem na vida da gente que, né, de se duvidar até mesmo quando foi vivenciado por nós.

- Moço... Pode ser aqui. Pode deixar a gente aqui. Pelo amor de Deus.
Começamos a nos desesperar outra vez. Só queríamos ser livres.
- Sério, moço. Pode parar. Aqui. está. bom. Não precisa se preocupar. (eu)

Foi quando pararam o carro, nos deram "boa noite" e ao saírem andando deixaram escapar um "juízo, ein?". Assim que nos vimos livres deles, nos sentamos na calçada e começamos a falar mal das leis. Afinal de contas, onde já se viu viver em um mundo onde prende-se as pessoas só porque elas resolveram SE drogar? Drogarem-se a si mesmas e ninguém mais? Eu ein. É a mesma coisa que um dia nos depararmos vivendo em uma sociedade onde ninguém pode comer açúcar porque faz mal e causa diabetes, dependência, etc. Uma sociedade onde escolher o que nos faz mal não nos será uma opção. Escolhem por nós, proíbem e inibem.

Como um ser racional, pensante e suscetível a falhas, eu quero que me deem o direito de escolha. O direito de errar, de me destruir e de me instruir. De me erguer ou de me destroçar. A vida é nossa. Não aguento mais que vivam nos castrando em nome da saúde ou da religião. Dos bons costumes ou das boas relações. Cansei de gente que gosta de usar suas próprias cavidades anais para o sexo ou que esconde segredos/desejos bizarros no escuro de suas intimidades e julga a escolha do outro. Que julga o desejo e a liberdade. Cansei de hipócritas. De gente que lê mil livros por mês ou não lê nada por anos, mas é incapaz de abrir os olhos para a intolerância e a ignorância que é castrar liberdade, prazeres e vidas. De gente babaca que se posiciona contra a possibilidade de livre escolha do próximo. Marginalizando pessoas que não são marginais, que não estão a margem da sociedade. Por anos a historia foi escrita por revolucionários, pessoas livres de toda essa merda que nos cerca. Esses certinhos sem sal, esses brutos e violentos sem massa cefálica não marcam nada, não mudam nada. Vivem, conseguem algo, chegam perto e morrem, vivendo o seu direito a eterna insignificância, resultado de uma eterna falta de visão, falta de vida, falta de experiencia, de aceitação a realidade. Meu grito não é a favor de nada. Meu grito é por liberdade, é por gays, héteros, jovens, humanos! É contra os estúpidos que manipulam, que reagem contra os seus. Não se encaixam em nada. Que viva a liberdade! Ou se não isso, que, pelo menos, não nos privem da pouca vida que nos resta desde o momento em que nascemos.

Até que tirando isso, não sei a opinião de vocês, mas eu fico muito orgulhoso de morar no Brasil. De ser brasileiro. Viver em um país onde existe o suborno. A verdade é que se eu morasse em qualquer outro lugar do mundo, nesse exato momento eu estaria fichado, sendo julgado e pagando penitencia. Pois é, Brasil. Eu te amo. Muito e de verdade.

Brasil, meu brasil brasileiro.
Meu mulato insoneiro:
vou cantar-te nuuus meeeus veeer-suuuuus.