Confusão à trois

14.3.11
Eu tenho tanto a agradecer a vocês por tudo o que vem me acontecendo. Obrigado. Contem comigo, já que eu pude contar com vocês nos dias em que eu menos queria existir. Pois bem. Não tem como deixar de contar desse carnaval, não. Juro. Só que antes eu preciso atualizar vocês de umas coisas de 2011.

De dezembro para cá; briguei com meus amigos - eu parei de falar com todo mundo (antes que vocês pensem que eles que pararam de falar comigo... não que eu ache que vocês fossem pensar uma coisa dessas) -, estive quase namorando com uma pessoa que valia tanto quanto o pregador de cabelo de Sara (minha empregada evangélica que não tem nem televisão em casa), terminei tudo e briguei com mais alguns outros amigos (e com os mesmos também). Veio, então, um período de calma.

Comecei a planejar uma viagem de carnaval com um grupo de amigos (os que eu ainda falava). Iríamos, inicialmente, para minha casa de praia. Descobrindo que meu pai não liberaria a chave para nós, resolvemos migrar para a casa de uma amiga nossa, que, infelizmente, contraiu o vírus da dengue. Lá estávamos nós, todos juntos sem ter para onde ir no carnaval. Mas quer saber? Tudo bem. Somos todos amigos e todos iríamos passar esse perrengue unidos, fazendo o V da vitória com os dedinhos das mãos.

- Pablo, já está sabendo?
- Não. Não estou sabendo, Mari.
Atendi ao telefone, meio impaciente com a minha prima. Quinta-feira pré carnaval e eu estava indo AO CINEMA. Não estava com saco para falar com ninguém.
- Amanhã parece que sairemos apenas nós dois.
- Claro que não. Todo mundo vai com a gente.
- Todo mundo foi viajar.
- COMO ASSIM?
- Ih, meu querido, todo mundo arrumou outro lugar para ir e nós ficamos.

Foi assim que descobri que amizade é: você precisar dos amigos e os amigos não precisarem de você.

Sexta-feira de carnaval, eu com minha prima gordinha e a melhor amiga dela, Cristal, uma jovem loira que adora sexo, e não tínhamos exatamente para onde ir. E não vou mentir: eu ainda estava UM POUCO chateado de ter me deslocado até o cinema para assistir GNOMEU E JULIETA no dia anterior e só haver me dado conta de que havia sido um erro ao final do filme. Quer dizer. E a amiga periguete da minha prima não parava de falar e falar e falar e falar. Eu não a encontrava há uns quatro meses, mais ou menos. Havíamos saído algumas vezes antes e é mais que obvia a minha adoração por ela, mas né. Sexta-feira de carnaval, nós estávamos no meu quarto assistindo A Cor Púrpura no canal TCM da Sky e ela vindo querer saber se a pele dela combina mais com verde limão ou com verde musgo. Francamente. Eu pedindo a morte ou, sei lá, um telefonema chamando para sair e ela falando de cores.

Minha prima sugeriu uma festa, mas não. Eu sugeri um bloco de carnaval, mas não. Cristal sugeriu uma festa de rua no subúrbio da cidade, mas na... bem, por que não? Desde que me entendo por gente, eu adoro fingir que sou fino, quando, na verdade, o que me deixa PARA MORRER de tanta felicidade é uma boa baixaria. Fomos. Coloquei uma roupa super chique. Adoro destoar da massa. Adoro.

Chegamos lá e dei de cara com o ninho da pobreza. Aquelas pessoas pulando com os braços para cima e um monte de gente vestindo lycra. Era, sem duvida, a sucursal do inferno. Estando na merda, resolvi abraçar o cocô: comecei a beber. Muito. Eu já peguei gente muito baranga depois de beber muito. Digo, já bebi o suficiente para achar pessoas muito feias pessoas muito gatas. Minha teoria era de que se beber funciona para embelezar humanos, também haveria de funcionar com ambientes desagradáveis. Sabe. Tipo transformar parede descascada em paredes chiquérrimas com efeito de juta. E, gente, é verdade: eu adoro um pobre. Serviçais e proletariados são muito cotados por mim. Gosto, sim, daqueles homens brutamontes ignorantes que comem com força, sabe. Gosto sim. Mas te contar que quanto mais eu bebia, mais eu tinha noção da realidade: eu estava na merda. Não rolava nem desejar a morte. Estava bêbado, mas tinha PLENA NOÇÃO de que seria maior feio acharem meu corpo naquele lugar. Até que surge meu primo, Álvaro, que mora por ali (não me perguntem).

- Esse é meu amigo Carlos e o amigo dele.
Apresentou meu primo.

Olhei para Carlos e Carlos era tão feio (e olha que eu já tinha bebido muito, ein?) que resolvi nem olhar para o tal amigo dele. Cristal e Mariana estavam ao meu lado, conversando alguma coisa sobre aquela noite estar sendo uma das mais divertidas da vida delas. Senti cutucarem meu ombro.

- Que foi?
Perguntei, meio sem paciência.
- Me presenta aquela sua amiga lorinha.
Era o amigo do Carlos.

Menino, quando olhei para aquele homem meu coração até ameaçou parar. Um moreno alto, com olhos cor de mel, braços fooortes que só vendo. Cheio das tatuagens. Tatuagem com números, tatuagem de tribal, tatuagem de teia de aranha no braço. Coisa feita à mão por Deus e colocado na terra com pinça, para não dar erro na fabricação. Que homem gostoso era aquele, minha gente. Suspiro.

- Aham.
Respondi, já pianinho, todo derretido. Como havia dito, eu adoro um pobre.

Puxei os dois e apresentei. Ele deu um beijinho lento na bochecha dela, daqueles beijos que querem dizer “oi, estou te dando um beijinho, quando na verdade estava mesmo é querendo te chupar toda”. Logo Cristal recebeu o beijo e passou a ignorá-lo, voltando a conversar com Mari, já que meu primo havia acabado de sair para pegar mais cerveja.

PABLO, VOCÊ NÃO PODE DEIXAR ESSE HOMEM ESCAPAR, pensava. VOCÊ PRECISA FAZER ALGUMA COISA. PERGUNTAR ALGUMA COISA.

- Você também mora por aqui? (eu)
- Não. (ele)

SÓ ISSO? “NÃO”? Não vai perguntar onde eu moro? Ih, que homem grosso. Deus me livre, não quero mais esse homem para mim, não. Certeza que ele não deve saber nem abrir a porta do carro. Certeza. Quer saber? Vou tocar um rebuliço aqui. Me estressei.

- Cristal, viu que homem grosso? Nego quer comer minha amiga, mas quer ser grosso comigo. Muito complicado.
Rimos que nem hienas. Na verdade eu só queria provocar, não queria rir. Mas rir fazia parte de provocar, então eu estava rindo. Ele olhou para mim com o olhar mais sério do mundo e me chamou com as mãos.

- Vem aqui.
Ele dizia.

AH, MAS EU NÃO VOU MESMO. NÃO VOU. JAMAIS QUE EU VOU ANDAR RUMO AO SOCO QUE ELE ME DARÁ. NUNCA. Havia feito vários planos para aquela noite e levar soco não era um deles.

- Nem vou. (eu)
- Vem sim, chega aqui. Vem.
Ele dizia, ainda fazendo sinal com a mão, só que empregando um sorriso estranho no rosto.

É SOCO. Não vou.

Coloquei a mão no bolso, pronto para pegar o celular. 1) Talvez eu ligasse para a policia assim que começasse a correr dele (porque eu estava pensando em correr...) 2) ou eu coloque no modo filmar para aparecer na TV após apanhar. Pensando bem, não seria uma má idéia levar esse soco. Eu poderia ganhar um especial de TV, por exemplo. Aparecer no fantástico, super pop, SBT noticias...

- Vem, amigo. Vem aqui.

"AMIGO" DE CU É RÔLA. Você quer é me bater. Não vou.

- Vai, Pablo!
Disse Mari, enquanto também estava saindo, só que em busca de... Mini pizzas.

Fui.

Ele se aproximou bem de mim. Senti minha barriga gelar. Ele reclinou-se, já que era bem mais alto que eu, e colocou a boca ao pé do meu ouvido.

- Eu moro aonde você querer.

QUANDO. ELE. FALOU. ISSO. MEU SENHOOOOR!!! Minha perna chegou a tremer. Minha vontade era de sair voando de tanto tesão. Nossa senhora, o que é isso.

- Hã?? (eu, meio perturbado de tesão)
- Se tu díscolá pa mim aquela lorinha, tu não vai se repender.
- Oi? Que? Como assim?
- Vô pegá tu de uma forma que tu num vai mais isquecer. Fazer gostoso.

AI, MEU DEEEEEEUS!!!!

Caí em cima de Cristal e arrastei-a até um cantinho.

- Amiga, o lance é o seguinte...
Ela me interrompeu:
- Pablo, eu não vou ficar com ele. Nem adianta.
- Amiga, você não está entendendo...
- Você é que não entende. Não posso ficar com ele...
- Ele quer você e eu. Quer sexo à três. Ménage à trois. Threesome. Eu e você.
- Como assim?
- Por favor, Cristal. Isso é o mais perto de sexo que eu cheguei nos últimos meses. Por favor.
- Não sei...
- Você só chupa e eu faço todo o resto. Por favooor!!!
Ela subiu os olhos para pensar.
- Ok. Tudo bem. Mas hoje não dá.

Ela me explicou que conhecia todos ao redor e todos conheciam o namorado dela. Eu não sabia muito bem sobre esse namorado, além de saber que ele existia, mas tudo bem. Respeitava ela não querer ser vista com outros. Além do mais, ela mostrou um certo pavor ao falar desse namorado. Talvez ele fosse um cara esquentado. Nunca se sabe.

- Pode deixar.

Voltei até ele.

- Ela topou, mas não pode ser hoje.
- Por quê?
- Ué, porque ela tem namorado e os amigos dele estão aí. Fora um ficante dela que está aqui e ela não quer parecer piranha, apesar de todo mundo já dizer que ela é, sabe como é.

OOPS. Acho que não deveria ter dito isso.

- Diz pá mina ir se caminhando até distras dos banhero químico. Vô dar uns beijo em tu e nela.

AI. MEU. DEUS. Não fala assim se não eu num aguentoooo!!!

Corri até Cristal. Mesmo esquema de puxar num cantinho.

- Amiga, parece que é para a gente se esconder atrás dos banheiros químicos para darmos uns beijinhos nele.
- Pablo... Você só pode estar brincando.

NÃO. NÃO ESTOU.

- Não. Não estou.
- Você já viu a quantidade de poça de mijo e LIXO que tem atrás dos banheiros químicos daqui?
- Mas, gente, o que tem? É só ficarmos na pontinha dos pés. Por favor, Cristal. Por favoooor!!!
Implorava.
- Pontinha dos pés?
- Por favoooor! Pooor favooooor!!!
- Ai, tá. Ok. Vamos.
Ela respondeu meio impaciente.

Se você está chegando agora, aqui vai um resumão da historia: eu conheci um ignorante fortão e estava OBRIGANDO uma amiga da minha prima a fazer sacanagem a três com a gente. Meu nome é Pablo Rodríguez, aka dignidade ambulante.

Dei as mãos para Cristal e passamos na frente do fortão.

- Vem, amor.
Falei para ele.

GENTE, EU O ACHEI DE AMOR E ELE ATENDEU. SABE QUANDO VOCÊ TEM CERTEZA QUE ROLOU UMA QUÍMICA LOUCA? POIS BEM.

Eu e Cristal íamos à frente. Cristal num clima meio de corredor da morte e eu todo feliz. Acho que se eu morresse ali, naquele minuto, ao encontrar meu corpo a policia abriria um inquérito só para descobrir o motivo daquele sorrisão final. Tudo estava acontecendo rápido demais. Eu estava chegando perto de fazer sexo no carnaval pela primeira vez. Passara anos inteiros imaginando o que seria ter transas de carnaval e lá estava eu, rumando para uma.

- PAREM TUDO. PAREM DE ANDAR!!!
Gritou Mari, vindo em nossa direção correndo que nem um rinoceronte.
- Eu já estou sabendo – continuava – Não faça isso, Cristal. Você não pode ir.
- Por que não?
Perguntei, já querendo partir para a briga.
- É, amiga, por quê?
Disse Cristal, se soltando da minha mão.
- Porque ele é mandado por Farelo. Ele é amigo de Farelo.
- CARALHO!
Cristal se desesperou.

ERA O QUE FALTAVA. QUEM É FARELO, AFINAL?

- Nada a ver. Quem é Farelo?
- Namorado dela, Pablo. (Mari)
- Ele não vai contar, gente. Vamos, Cristal!
- Ele é mandado, Pablo. Mandado. (Mari)
- O que é isso?
- Pablo, você não sabe de nada.
Cristal gritou, enquanto saia o mais rápido possível dali.

Sorri sem graça para o cara e fui atrás das duas. Cheguei pedindo explicações, afinal, eu merecia algumas explicações, obvio. E olha, não gostei nada do que eu ouvi. O seguinte: parece que nesses quatro meses que andei meio afastado de Cristal, ela arrumou um namorado. Um namorado traficante. E não é desses traficantes que vendem alguma coisa de leve para os amigos, não. Estamos falando de um traficante de verdade: desses que mora no morro, rouba, mata e assalta durante o dia e dá umas bitocas em Cristal de noite. Diz até que dia desses ele andou castigando umas meninas lá no morro onde mora, cortando o cabelo delas com serrote (o que arrancou uns pedaços do coro cabeludo) e raspando o resto com gilete.

- Ai, meu Deus.
Disse, com os olhos arregalados.
- Pois é. E eu não posso terminar com ele.
- Porque, Cristal?
Questionei com medo.
- Porque ele me queimaria viva. Literalmente.
- Nossa, que barra.
- É. E não posso deixar ele descobrir que o traio.
- Porque, Cristal?
- Senão ele arrancará meu coro cabeludo também. É isso que acontece com as meninas infiéis na lei do trafico.
- Nossa. – Suspirei – Mas o que é mandado?
Dessa vez foi Cristal quem suspirou:
- Mandado é quando o bandido manda um espião para descobrir o que está acontecendo. Por exemplo: se alguém é X9, se alguém é infiel. Essas coisas.
- Nossa. (eu)
- Sim. E caso a suspeita de Farelo seja confirmada, o mandado telefona e avisa o que se passou. (Mari)
- E daí?
- Daí que o bandido vem até o que esta acontecendo para aplicar algum castigo. (Cristal)
- Isso quer dizer que...?
- Que ele pode estar vindo atrás de mim nesse exato momento.

AI. MEU. DEUS. TEM UM BANDIDO VINDO ME MATAAAAAAAR!!!!

O tal fortão ser bandido explicava as tatuagens de numero que ele tinha nos braços. Eram da cadeia. Eu saí de casa achando que a noite seria muito ruim e ela estava ficando mesmo. De repente, em menos de cinco minutos, eu havia arrumado um jeito de entrar na mira do trafico que está refugiado em Niterói, minha cidade. Sabe aqueles bandidos que foram vistos fugindo da policia na invasão do Complexo do Alemão? Pois é. Ao que tudo me indicava, um deles estava indo aplicar um castigo em mim. E nem adiantava eu querer me iludir achando que talvez eu pudesse sair livre dessa. A situação era mais que clara: eu havia dito para o fortão que Cristal era uma piranha e nós estávamos indo trocar uns beijos e tentar fazer um sexo à três atrás de banheiros químicos. Ou seja, eu havia dado todas as informações que o tal mandado precisava para decretar a morte de Cristal e eu estava na mira do tiro, juntinho com ela.

Levantei a cabeça e vi que o fortão vindo em nossa direção, atravessando um mar de gente. Meu coração começou a bater forte, afinal, eu estava querendo é morrer, caso isso significasse transar com aquele cara. Mas não. Eu iria morrer sem dar a bunda ao menos uma vez naquela noite. Não pretendia ficar parado ali até que aparecesse um bandido com uma arma para que enfim ele pudesse hold It against me.

- Meninas, ele está vindo para cá!!!!
Gritei, ficando sem ar.
- Quem?
- O Mandado.
- Hã?
- Corram!!!


E saí correndo. Fui me enfiando entre as pessoas da festa, me esgueirando até desaparecer. Olhei para trás e vi que elas não haviam conseguido me seguir. Mas que vontade de chorar! Eu não sabia como iria explicar para a minha tia como deixei Mariana para trás naquele momento. Como foi que não fui bravo o suficiente para livrá-la da morte ou morrer junto a ela. Fui discretamente para trás de uma barraquinha de caipifruta. Sentei-me no chão, recostado à parede. Não me importei nem com a possibilidade de haverem feito xixi ali. Afinal, eu poderia morrer mesmo. Comecei a beber a caipifruta de morango que eu havia pedido antes de sentar e a medida que ia bebendo, meio que fui relaxando. Até que apaguei.

- Pablo, acorda. Temos que ir embora.
Era Mariana, me dando uns tapas na cara.
- Mari? Você está viva?
Abria os olhos e falava embolado.
- Estou, mas quase morri de preocupação com esse seu sumiço.
- hehe
- Já são cinco da manhã. Vamos embora.

Cristal me ajudou a levantar. No fundo eu estava feliz em saber que elas estavam vivas, mas um tanto chateado de ter passado o resto da noite escondido enquanto elas meio que curtiam.

- Curtiram muito sem mim?
- Curtir não sei o quê, Pablo. Nós quase ligamos para a policia para que buscassem você. Estávamos arrasadas.
Disse Cristal.
- hehe

Na volta para casa, fui despertando da minha embriaguez. Percebendo que a noite havia sido incrível. Havia adorado a aventura. Poderia não haver acabado bem, mas acabou. E também estava com um certo medo por Cristal. A situação que ela se colocou na vida é um tanto que delicada. Passara aquela manhã conversando com ela sobre, mas ela pareceu não estar se importando muito - nem com a sua vida, nem com a minha. A alertei que talvez ela não se importe de aparecer morta, mas que quando isso acontecer ela não estará aqui para ver o quanto a filha dela irá se importar. Cristal teve uma filha aos 16 anos, hoje a menina tem 5. E o pai da menina nem a vê...

ps: Após o termino do carnaval minha amiga que estava com dengue postou umas fotos no orkut onde se encontrava caindo na esbórnia de sexta à terça, com direito a um churrasquinho light na quarta-feira de cinzas. Questionada sobre o fato, ela disse que mentiu mesmo e é isso aí.
ps2: Não estou falando com ela.

Preciso parar de brigar com meus amigos...
Enquanto me restam amigos.

On the radio

12.3.11
Nego sempre me perguntou o motivo de eu gostar tanto de fofoca. Simples: a fofoca é o ópio dos oprimidos. Ou seja: eu. Oprimidão. Vai. Essa resposta até que teria sido genial se houvesse partido originalmente de mim. Mas foi dito pela escritora (e professora) americana Erica Jong, em 1942. Agora veja só o que o pessoal estava APRENDENDO em 1942. Mais para lá de criticas ao que as pessoas aprendiam na escola durante a segunda guerra mundial (!), o que ela disse meio que deixa explicito o fato de que muito antes de 42, a galera já ouvia os babados e saía por aí abrindo uma enorme boca para falar sobre a vida dos outros. E eu, muito chegado numa atitude elegante, que não ficaria de fora de um comportamento tão... clássico e vintage.

No colégio, certa vez, eu fiquei sabendo que uma menina tinha pago boquete para o menino mais desejado da escola. Atrás da cantina, entre uns muros que levavam até a área da piscina (meu colégio tinha piscina e até hoje eu nunca entendi bem o motivo dela estar lá, já que ninguém nunca mergulhou. Bem. Alguém devia mergulhar. O caso é: eu nunca mergulhei). Assim que Ângela me confidenciou o que havia feito... Minha gente, num me aguentei e saí batido pelo pátio para não atrasar a noticia aos ouvidos de Juliana. Juliana contou para Piero, que contou para Alexandre, que contou para Rudá, que veio confirmar comigo (e eu confirmei, claro) e aproveitei para ajudar a contar para Marion, que contou para Renata, que contou para Danilo que contou para a escola toda, já que ele também era meio viado. Ou elegante e vintage. Nunca saberemos.

Te falar que sentei com os braços atrás da cabeça no pátio, coloquei os pés em cima de um banquinho e fiquei só na moita, assistindo todo mundo chamar Ângela de piranha. Mas que sensação gostosa. Sabe. Eu é que tinha feito aquilo tudo. E por aquilo tudo quero dizer: Ângela chorando e gritando que foi só um boquete, sendo surpreendida pela inspetora e sendo arrastada pelos braços até a diretoria. Gente, mas que sucesso, viu. Nem nos meus sonhos mais absurdos eu poderia, naquela época, ter imaginado umas frases minhas repercutindo tanto. Até que o inesperado me agarrou pelas calças e me deixou de cuecas em publico: Ângela, aquela safada sem escrúpulos, negou tudo. Numa investigação aberta pela diretora do colégio, todos que diziam saber que a historia era verídica, apontavam para mim como a fonte confiável que os levou a crer na veracidade do fato que, segundo Ângela, não havia ocorrido. Fui levado a diretoria, ganhei uma suspensão, Ângela e o menino estavam ameaçando me bater e sempre que eu me aproximava das rodas de conversa, o pessoal fazia "sh, fala mais nada. Pablo chegou". Depois de um mês comendo coxinha de galinha sozinho no cantinho do pátio, eu jurei nunca mais fazer fofoca na minha vida. E ainda convenci o menino que aquilo fez bem para a imagem dele, já que todos estavam querendo chupa-lo também. Inclusive eu.

Mudei de escola e não demorou cinco meses para surgir o burburinho de um blog que estava contando os segredos de todo mundo: o meu blog. Em 2001 eu já fazia barulho com blog de fofoca e a negada nem sonhava com Gossip Girl. Em seguida, alguém criou um blog igual e espalhou por lá o fato do diretor estar comendo a professora de espanhol. Durante a tarde, enquanto lia o blog rival, achava maior graça da nova tendência que havia criado. Mais uma vez: ponto para mim. Dia seguinte, cheguei na escola e o clima era de funeral da Lady Di, todo mundo meio abatido sem saber se me dar adeus era algo bom ou não. Fui levado a diretoria e acusado de ser dono de ambos os blogs e, antes de levar uma nova suspensão (afinal, que injustiça! não era meu. eu jamais colocaria gifs animados nos meus posts. francamente), jurei nunca mais fazer fofoca na minha vida. Nunca mais. Só que, né gente, eu não consegui. É por isso que vou estar hoje no programa Papo de Quinta, contando para vocês umas coisas NAQUELE meu estilinho bem que jura nunca. mais. fazer. fofoca. na. vida.

Hoje, às 22:00hrs, clique no logotipo para escutar ao vivo.

Olha, acho bem que errei a fonte de algumas noticias, o nome de alguns jornalistas e sites e meio que estava achando que havia me enganado ao falar sobre Evaristo e, bem, me enganei nada não. Mas olha, vocês vão nem notar, porque eu conto umas mentiras com uma PROPRIEDADE no assunto que é de deixar qualquer um admirado.

- Mas Pablo, você tem certeza que Napoleão dominou o Egito?
- Menino, claro que tenho. Tudo aconteceu durante a cruzada no Canal da Mancha.
- Nossa.
- Pois é. Esses fatos históricos me fascinam. Sei tudo.

E pronto, ninguém questiona mais nada. Afinal, quem vai discutir com alguém que cita até A CRUZADA NO CANAL DA MANCHA? Que, vale lembrar, nunca existiu? Que na falta de conhecimento, nunca nos falte a cara de pau.

E corram para escutar a rádio, porque dessa vez foi a ultima vez que fiz fofoca.
É sério.