O dia em que o Fashion Rio venceu Bergman

16.1.11
Estava a toa na vida quando a Karina me chamou para comparecer ao desfile da Auslander, no ultimo dia de Fashion Rio. Como sou tão ligo ao mundo fashion quanto sou ligado aos últimos acontecimentos da programação da TV russa, fiquei me perguntando o que seria Auslander. Após jogar no google e descobrir se tratar de uma nova grife que vem tomando o coração dos fashionistas e jovens alternativos, resolvi que poderia ser interessante. Ou não. Talvez não. Talvez fosse bom ficar em casa e descansar para alguma balada. Afinal, estar no Fashion Rio, circulando em meio a aquelas pessoas que se vestem de forma exagerada e usam aqueles cabelos meio esquisitos, é sempre muito desconfortável. É como estar na orla de Copacabana à meia noite, se perguntando o que levou aquelas pessoas a chegar a tal ponto na vida.

Ainda mais ir para assistir um desfile de vinte minutos e voltar. Além de achar que é MEIO desnecessário se arrumar para ir à um lugar onde te dirão que você não está lá tão arrumado. Não tem uma musica ao vivo, um show de abertura, uma coxinha de galinha, um drink, um suco de laranja, uma água. Nada. Gente, não tem água. Conseguem entender aonde estou querendo chegar? Não tem á-g-u-a. E eles não te dão nem um fandangos para você passar o tempo. Visualizem só que show de entretenimento isso poderia ser: Todos sentados em suas cadeiras comendo fandangos, as modelos famintas passando pela passarela, os fotógrafos alucinados clicando nego da primeira fileira com farelo no canto da boca. Beth Lagos, Lilian Pacce, Érika Palomino - todas, todas com farelo de fandangos no canto da boca. Isso, sim, seria imperdível. Mas não. É assim:

Você chega e senta. Daí começa.

Modelos, modelos, modelos...

- Gente, olha só aqueles ossos saltando das costas da menina!
- Aquilo é osso? Nossa. Jurava que fazia parte da roupa.
- Pois é.

Roupas, roupas, roupas... Mais roupas e roupas...

- Já vi esse paletó antes em algum lugar.
- Viu nada, Pablo. Essa coleção é inédita, bobo.
- Mas eu juro que já vi. Só que antes ele não tinha pena de ganso, eu acho.

E fim. Você já pode ir embora.

Só isso. Nada além. N-a-d-a além. Não vou. Vou ficar em casa e ver alguns filmes, pensava. Estava me devendo rever Persona do Bergman há algumas semanas e aquela tarde de sábado estava perfeita para isso. Umas pipocas, uma coca-cola zero bem gelada...

- Amigo, que mané Persona.
- É um filme clássico, Karina. Do Bergman!
- Que mané Bergman! Vamos, sim. Vai ter um modelo internacional muito gato!


Chegando ao evento, começamos a filar umas bebidas do espaço Vogue e umas bebidas do espaço Sebrae e umas bebidas aqui, bebidas ali e quando vimos estávamos dentro dos bastidores do desfile da Auslander. Com o tal modelo internacional muito gato. Não sei qual seria a primeira coisa a se passar na cabeça de vocês, mas estando nos bastidores e vendo um monte de modelos passando meio bêbados, a primeira coisa que me ocorreu foi que talvez estivesse na hora de dar uma saqueada na geladeira daquele camarim e pegar umas bebidas de graça. Corri até o freezer.

Foi então que Karina, que estava mais grudadinha no modelo internacional impossível, afastou-se dele e veio se aproximando- um tanto zonza, bastante desnorteada.

- Amiga, o que houve? Está tudo bem?
Perguntei, enquanto Karina seguia meio perdida.
- Putz, velho. Alguém mais sentiu?
- O que, Karina? Você está bem?

RING THE ALARM: A ASMA DELA ESTÁ ATACANDO. CHAMEM OS PARA-MÉDICOS!!!

- Gente... (ela)
- Karina, o que houve??!!
- O C.C. do cara. O que era aquilo, meu Deus? Ele tinha CC.
Desabafou Karina, ainda com aquela cara de quem passara por momentos de horror enquanto esteve abraçada ao top dos sonhos.

Desfile terminado, todo mundo socializando e era hora de partir. Rolou o bafafá de que pegaríamos carona no carro de uma amiga de uma outra amiga da Karina. Tentei alertar que TALVEZ não fosse uma boa idéia ir tanta gente dentro de um carro só. Ninguém me escutou. Tudo bem. Vamos lá.

E lá fomos nós, cinco pessoas atrás, três na frente e zero possibilidades de dar certo. Repetindo: zero possibilidades de dar certo. Entramos no carro e começamos a comentar dos momentos mais marcantes da noite. Modelo internacional muito gato e sem desodorante, espaço Vogue meio caído...

SIRENES. LUZES.
Viaturas da policia atrás do carro. Meu estômago gelou. Era só o que nos faltava, estar acontecendo alguma coisa naquela rua exatamente no momento em que estávamos passando por ela. De repente, as viaturas começaram a nos encurralar e nos jogar para o canto da pista. Pânico.

AI, MEU DEUS. PRECISO ESCONDER MINHA CERVEJA.

Escondi minha latinha atrás do banco do carro.

- Encosta o carro, encosta o carro!
Gritava um dos policiais.
- Gente, não encosta!
Alguém pediu.

Como assim "não encosta"? É para encostar o carro. Por tudo que é mais sagrado: encostem o carro. Não vamos dar mais motivos para eles atirarem. Eu imploro. Pai nosso que estas no céu...

Encostamos o carro. Os policiais seguraram suas armas.

GENTE, SOCORRO: VAMOS MORRER!

Sabe aquele lance de ZERO possibilidades de dar certo? Pois é.

Peguei o celular para discar para o meu pai e minha mãe. Não pretendia morrer (ou ser preso) sem dizer que os amava. Também comecei a pensar que talvez fosse bom ligar para algumas outras pessoas, só para falar umas coisas. Invariavelmente temos em nossas vidas aquela gente que sempre sentimos vontade de mandar tomar no cu e nunca nos foi possível, por vários motivos e circunstâncias. Mas agora não. Eu estava por ser morto (ou ser preso) e poderia mandar quem eu bem entendesse tomar no cu. Aqueles que um dia já chamei de amigos e não foram tão amigos assim, aquelas pessoas que ainda acham que são minhas amigas e não são tão amigas assim, pessoas que estão me devendo e não pagam... E ah, principalmente a Patrícia do Itaú. Nossa. A P-a-t-r-í-c-i-a do Itaú. Meu irmão, essa mulher não existe - ela não pode ser real. Ela é uma invenção do inferno para tentar acabar com a minha paz. Taí uma pessoa que me irrita pelo menos umas 4 vezes na semana. 4 vezes na semana essa Patrícia do Itaú está me ligando só para me irritar. Daria tudo para ter o telefone pessoal dela na minha agenda.

- Alô, Patrícia? É Pablo Rodríguez.
- Pois não, senhor.
- Tô te ligando só pra te desejar um 2011 cheio do pau na bunda, sua escrota.

Os policiais gritaram novamente para que as janelas fossem abaixadas. Apertei os olhos. Meu corpo estava sendo tomado por uma tensão jamais sentida. E gases. Depois de tanta cerveja, comecei a ficar com gases. Ai, meu deus.

- Abram as janelas do carro! Abram as janelas!
Seguiam dando a ordem.

As meninas começaram a dar pequenos gritinhos de pavor. Abrimos as janelas. Pronto. Além da tensão e dos gases (no caso, em mim), o pânico também tomava nossos corpos. Apertei a mão de Karina com angustia. Todos nos entre olhávamos meio que nos despedindo. Era o fim. Era a morte. Adeus, amigas. Adeus, mundo cruel.

- Todo mundo descendo do carro.
Gritou o policial.
- Não. Ai, moço, por favor, não... (eu)
- Todo mundo descendo. (ele)
- Todo mundo mesmo? (eu)
Tudo que eu precisava era de me manter sentadinho ali. Tentar levantar = peido.
- Desçam!
Ele continuou. Daquela vez, subindo o tom.

Desci. Pernas meio bambas, mas queixo bem firme. Deixei aquele cheiro todo dentro do carro e mantive a porta aberta - vai que dava tempo do cheiro sumir e ninguém notar depois que as coisas se resolvessem? Abri uma latinha de coca-cola para distrair a atenção das pessoas quanto ao cheiro que pairava no ar. Não iria assumir que aquele cheiro todo saiu de dentro de mim. Preferia a morte a me ver assumindo um cheiro daqueles. Mas acho que estavam todos tão tensos que nem sentiram nada. O que prova que Deus age de diversas maneiras. Estavamos ali sendo humilhados por policiais? Estávamos sim. Mas sentiram o cheiro do meu peido? Sentiram não. Isso é o que? Deus se manifestando a favor de todos os presentes naquele ambiente.

Mais aliviado, olhei para o policial. Interessante. Analisando bem, esse policial até que dá um caldo, pensava. Era uma mistura louca de Capitão Nascimento com o filhote do cão que chupou manga - mas que deu certo. Eu juro. Tinha uma sensualidade ali. Parecia ser daqueles homens que vivem entre a linha tênue do ser charmoso e troglodita, se é que me entendem (e caso entendam, me perdoem a falta de foco).

- Tem muita gente dentro do carro, né?
- Estamos vindo da Fashion Week e resolvemos dar carona para uns amigos.
Explicava a motorista.

E depois de alguns minutos se explicando e levando umas broncas por excesso de passageiros, veio a noticia de que a carteira de habilitação dela estava um tanto quanto vencida. Que talvez isso gerasse uma multa ou uma apreensão do automóvel.

- Amiga, você não acha que é melhor pegar um táxi?
- Mas isso não pode acabar parecendo uma fuga perante os olhos dos policiais?
- Ih, é. Verdade. Melhor nem nos mexermos muito.
Conversamos no cantinho.

Mas isso da habilitação e do excesso de passageiros não foi nada que não tenha sido resolvido. Afinal, estamos no país do coração aberto - estamos no Rio de Janeiro, cidade de gente simpática, calorosa, receptiva. Todo mundo por aqui é muito legal.

- O que vocês podem fazer para que nós possamos ajudar vocês?
Perguntou o policial - que era muito legal. E receptivo.

Tanto que eles receberam uma grana e pronto: estávamos todos voltando para casa. Seguros e tranqüilos. Depois de tudo, até rolou um tchauzinho para os caras através do retrovisor. Só não deu tempo de trocar contato. Não que eu não tenha pensado no caso, mas eles estavam muito ocupados contando o dinheiro que conseguiram e tentando achar uma calculadora no celular, para saber como dividir uma quantia exata por três. Taí uma verdade descoberta por mim em 2011:

o Brasil é mesmo um mulato insoneiro.
Tal como cantava Ary Barroso.