- Ai, meu Deus, tem um loiro de cowboy aqui na festa do Leonardo!
E comecei a pensar que talvez pudesse ser um stripper. Vai saber.
Puxei Leonardo num canto e antes mesmo de dar os parabéns, mandei ele me explicar quem exatamente era aquele loiro. Mistério resolvido, era o tequileiro do local. Para quem não sabe, porque não costuma sair de casa para as noites muito doidas, tequileiros são os profissionais que chegam na sua mesa oferecendo tequila e te fazem ficar doidinho ao longo do evento. Preciso nem dizer que depois de avistar aquele homem, nada e nem ninguém me faria desistir de tomar tequilas a noite toda, né mesmo? Pois é.
- Gente, bôra beber tequilas! Eu pago, podem deixar. (eu, mostrando que ser fino é para poucos)
E te contar que eu estava mesmo muito fino, viu. Estava que nem uma lésbica social chic. Todo garantido na roupinha gomada, uma coisa fofa demais. Sentei na mesa e mandei chamar o cara.
- Ô seu tequileiro, chega mais.
Ele chegou bem pertinho e gente... eu juro, eu estava sentindo a calça jeans vagabunda dele roçando no meu braço. Podem duvidar: mas eu juro. E foi assim que me apaixonei.
(eu) - Duas doses de tequila aqui para mim e para minha friend.
(ele) - Si, señor.
Sotaque. Gente, ele tinha um so-ta-que. Olha, se tem uma coisa que me deixa com mais tesão que viagem para fora do país, são pessoas que nasceram fora do país. Morro legal num gringo. É isso aí.
- Sotaque? (Lá estava eu começando a baixaria...) De onde é que você vem, señor tequileiro?
Eu disse SEÑOR TEQUILEIRO? Me enforquem!!!
- Argentina.
AI MEU DEUS. AGORA É OFICIAL: ME ENFORQUEM.
Não há nada nesse mundo que me dê mais tesão que argentino, gente. Quer dizer...
Notei que o namorado Argentino do Léo notou que eu tava dando em cima do tequileiro e vi escrito na testa dele a seguinte frase: muito sem nível. Não é de hoje que ele não vai muito com a minha cara. Deve ser racismo ou ciúmes. Ô homem possessivo, viu. E ainda tava de cara feia para mim. Não deu dois tempos e eu aproveitei o fato dele não falar português para começar a falar mal dele para todo mundo na mesa.
- Gente, tô louco ou esse homem do Léo é muito chato?
- Galera, vocês já notaram como esse namorado do Leo é chato?
- Meninas, num sei se viram, mas namorado do Leo é chato, ein.
Chegou um momento que eu estava me divertindo tanto com isso de falar mal do namorado dos outros, que comentei até com a garçonete.
- Eu vou querer uma porção de batatas. Mas cuidado quando for atender aquele lado ali da mesa, tem um argentino ali que é meio chato, tá.
Enfim. Já falei pro Léo sair dessa relação. Mas se ele é feliz com um homem que só elogia ele, dá presentes, é romântico e vem ao Brasil para vê-lo, eu que não vou me meter.
- Então quer dizer que você é argentino? Ai, que bom. (eu, para o tequileiro - claro)
SERÁ QUE NÃO VAI FICAR CHATO EU DAR EM CIMA DELE? ACHO QUE NÃO.
- Te gusta argentina?
- Me gustan los argentinos.
É. TALVEZ FIQUE UM POUCO CHATO.
Depois de bebermos as tequilas, fiquei bêbado. E a grande novidade é que comecei a contar pra todo mundo que eu e o tequileiro éramos um só coração.
- Eu e ele? Claro, gente. Tá rolando uma vibe tão positiva. Vocês também tão conseguindo sentir?
Aproveitei a minha nova amizade de infância com a garçonete e mandei ela me trazer uma coca-cola zero e o tequileiro para viagem, por favor.
- Você gostou dele? (Garçonete, sobre o tequileiro)
- Nossa. E como. (eu, com a boca cheia de batatas e ketchup)
- Parece que ele também gostou de você.
Amigos, fiquei com a barriga geladinha. Não é exagero: a mesa toda vibrou. São nesses momentos da vida que você realiza bem o fracassado que é. Ao saberem que alguém me queria, meus amigos fizeram parecer que o Brasil tinha feito um gol.
- Manda esse homem voltar aqui na mesa e é agora. (Eu, acabando de me arrepender de ser bocudo)
Lembrei que começo a falar errado depois que bebo. Não era o momento daquele homem voltar, eu podia estragar tudo.
Tarde demais.
A mulher foi lá e chamou o cara. Senhoras e senhores, Pablo Rodríguez apresenta: como passar de bobo da corte à tímido em 3 segundos úteis. Foi o homem chegar perto de mim preu num conseguir mais abrir a boca para falar um nada. Nem que queria mais tequila.
(ele) - Tequila, tequila?
Pensei em responder, mas na hora só consegui balançar a cabeça, sinalizando que sim.
Ele serviu mais duas doses. Bebemos eu e Lissa, uma amiga.
- Tequileiro, balança a cabeça dele para deixa-lo bêbado! (Lissa, fofa)
- Não. Melhor não. (Eu, com vergonha)
Olha, não disse antes para me resguardar, mas eu não queria que ele balançasse minha cabeça, só porque eu tinha enchido ela de olho silicone, para dar brilho e maciez. O resultado ia ser um só: o cara ia ficar com a mão parecendo que mergulhou os dedos em azeite de oliva.
E como já era de se esperar, quando se trata de ser a minha vida, o homem foi lá e sacudiu minha cabeça.
- hehe gente, isso não é neve, tá? É caspa. :D
E daí comecei a beber Tequila com Ana, que recém havia conhecido e que junto com Juliana, Daniel e Gabrielle, haviam se tornado meu grupo de melhores amigos dos tempos do colégio. Juliana, que de fã relampago se tornou best friend, ficava só rindo. Te contar que bebemos uma tequila atrás da outra. Até que chegou o ponto que comecei a falar sem parar. Sofro da síndrome do bêbado chato. Bebo e acho que sou engraçado e não consigo deixar ninguém ao meu redor falar. Mas já tô me resolvendo na terapia, relaxa aí.
Toda vez que o tequileiro se aproximava, eu calava a boca. Logo, Juliana e as meninas pararam de rir e começaram a se revoltar com minha falta de atitude. Resolveram até ir embora.
Tá. Mentira.
Acontece que o namorado Argentino do Leo (erg) ficou com sono e pediu para ir embora. Dez minutos depois desse homem avisar o sono, Leo mandou chamar o bolo, cantamos parabéns e todo mundo deu no pé. Sobramos apenas nós no local, bebendo. Ao notar que estava sozinho com desconhecidos (legais, mas nunca antes vistos na historia da minha vida) fui no banheiro dar uma refletida.
- Que cabelo lindo. (Uma menina, na fila do banheiro)
- Obrigado. Amei seu batom. (Eu, notando estar na fila errada)
- Ai, que fofão você é.
Adorei essa menina da fila do banheiro. Vou ficar por aqui.
- Menina, já viu o tequileiro?
- Claro. Pego sempre. (Olha, acho que bebi demais e tô ouvindo coisas. Vou tirar a duvida...)
- Oi, você o que?
- Pego sempre. Uma delicia, né? Como beija bem.
- Mas ele num é gay ou sei lá? Ouvi por aí um papo do sei lá.
- Olha, se é eu não tô sabendo. Pois comigo ele sempre foi muito homem.
Ai, que menina inconveniente. Bem vou embora sem dar tchau.
Fui embora. Sem dar tchau.
- Gente, vamo embora mesmo. Acabei de descobrir que o tequileiro tá pegando mulher.
- É, hoje ele tá dando uma de hetero. (Garçonete, limpando a mesa e intervindo) Soube que pegou uma novinha, levou pro banheiro dos funcionários e ficaram lá por cinco minutos.
Ai, amiugos, não sei se vocês me entendem, mas eu não queria mais investir num homem que goza em cinco minutos. Fui embora. Eu ein. E foi na hora de ir embora que eu ganhei a noite e descobri que: não importa o que aconteça, tudo pode sempre terminar bem.
- Senhor, o seu cartão não está passando.
- Tá sim, pode tentar de novo.
PAI NOSSO QUE ESTÁS NO CÉU...
- Não passou, senhor. Tento outra vez?
- Tenta aí.
SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME...
- Senhor?
- Ai, moça. Eu não tenho dinheiro.
Comecei a lacrimejar.
E daí deu-se inicio ao auê de ligar pro meu pai, ligar para minha mãe. Começar a querer chorar. Então, virei os olhos para o teto e pensei: será que se eu sair correndo eles me alcançam? Não aguento mais ser imagem e não ter cinco reais no bolso. Não dá mais para mim. Eu não posso nem me viciar em drogas por não ter dinheiro para usar nada. Comecei a me preparar para sair correndo. É 1, é 2, é 3 e é...
- Pode passar esse cartão daqui, moça. (Juliana, rindo... de mim)
Juliana passou o cartão dela e pagou o pedaço da minha conta que faltava. Eu disse que a noite sempre termina bem... para alguém. Não para mim. Enquanto voltava de ônibus para casa, refletia sobre até onde eu estou disposto a ir para conseguir um homem. Naquela noite, por exemplo, fui aos limites do meu cartão. Se a coisa não melhorar, não sei mais do que sou capaz de fazer. Quer dizer... até sei.
